03 novembro 2014

Texto primogênito

"No caminho, era tudo familiar, sentia as mesmas borboletas rodando pelo meu estômago, parecia que continuava sendo rotina. A entrada no condomínio, sem precisar me identificar. Mesmo assim sabia que tinha algo errado. Me senti como uma estranha, que conhecia aquele lugar muito bem. As borboletas do meu estômago só me empurrava em direção ao elevador, só que eu sabia que hoje seria diferente, o elevador não ia fazer parte do meu dia, e sim o velho quiosque de idas e voltas.  
 Achei que hoje seria diferente da ultima vez que estive aqui. Achei que hoje a pupila dele ia crescer. A pupila dele parecia que gostava de me ver sorrindo, sempre que eu parava para olhar nos olhos dele, elas cresciam e diminuiam em sincronia. Achei que hoje.. Só hoje..Só achei. Ele me cumprimentou com um beijo na cabeça e outro na testa, selando o respeito e afeto por mim. Sentou na cadeira ao lado a espera que eu falasse algo, e de um instante para outro, as palavras sumiram e as borboletas se acalmaram. O mundo parou. Ele estava ali comigo, e pronto, só isso importava. Era só isso que sempre importou. 
 Ele não mudou nada fisicamente, eu sabia,e sentia que ali dentro não existia mais a pessoa que eu me apaixonei, e se existisse, não queria ser encontrado. Aproveitei cada segundinho ali, sem dizer se quer uma palavra, mexendo meus dedos sobre seu cabelo encaracolado, e mais oleoso impossível, estava na cara que ele tinha acabado de levantar da cama. Só pensava se ia ter algum momento que ele ia tentar me beijar, ou quando seria a hora certa de dizer algo.  Ele torna tudo tão rápido e tão demorado. Ele para o tempo, e ao mesmo tempo acelera. Gostaria de puxar aquele cabelo que eu amo, e dizer tudo o que estava preso em mim, e só sair dali quando estivesse pronta. Só que eu procurava a sensação das borboletas e elas continuavam intactas, e minha boca, sem sair nenhum som. Queria que aquele momento se eternizasse. Daquele exato jeito. Poderia morrer naquele instante, eu estaria satisfeita e feliz.
Tenho certeza que ele sentia como minha respiração estava quente, enquanto meu rosto estava no seu pescoço, enquanto minhas mãos tremiam ao fazer cafuné nele. Tremiam por saber que aquele momento não era eterno, que o nosso "para sempre" acabou a muito tempo. Quando ele me olhou daquele jeito, como uma criança que pede o ultimo biscoito do pacote, eu não resistir. Eu nunca resisto. Dei um beijo como quem dissesse "vim aqui pra isso". É o mesmo beijo que eu sou apaixonada a tanto tempo.
  Nunca fui fã de despedidas, e hoje não poderia ser diferente, fui durona por todo o tempo, e agora faço o papel da criança pedindo o ultimo biscoito, e começo a chorar, e sussurro um "ainda te amo, eu ainda te amo muito", e escuto o mesmo. "


Por mais que a gente saiba que nem tudo é para sempre, a dor da perda é incomparável a qualquer outra coisa do mundo. Ninguém precisa de desespero. Se for para ser, uma hora tudo vai soprar a favor. E se não for, a vida é assim. Dá e depois tira. Tira e depois dá de novo. A gente nunca pode adivinhar o que vai acontecer. Então viva. Por favor, viva. 


Escrito por: Brenda Ianca

6 comentários:

  1. Vc já pensou em escrever um livro?

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    1. Já.. Mas não tenho apoio de nenhuma editora, e nem uma historia fixa rs

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  2. Quem sabe esse texto n~so será um pedacinho de seu livro? Perfeito!

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Criado por: Mariely Abreu | Todos os direitos reservados ©. voltar ao topo